A Galeria do Largo, localizada no coração de Manaus, abriu as portas para a nova exposição do Estúdio Buriti: Um Mergulho entre Mundos. Com entrada gratuita, a mostra é uma experiência artística imersiva que convida o público a transitar entre dimensões físicas e espirituais por meio da arte contemporânea produzida na Amazônia.
A exposição é realizada com apoio do Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa e da Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural (AADC). O espaço está aberto para visitação de quarta a domingo, das 15h às 20h, na rua Costa Azevedo, 290, no Largo de São Sebastião, Centro de Manaus.
Sob a curadoria de Rafa Pimentel, a exposição reúne obras de artistas do Amazonas e do Pará, como Dayane Cruz Pimentel, Erleson Souza Ferreira, Juan Carvalho da Silva, Renan de Oliveira, Levi Gama, Diogo Trindade e a artista indígena paraense Kamy Wará, do povo Sateré-Mawé.
Entre os destaques está o mural Abissal Profundo, de Erlesson Souza, que representa a ancestralidade negra na Amazônia. A obra retrata o apagamento da história negra na região, dando protagonismo às pessoas escravizadas e assassinadas, cujas memórias foram lançadas aos rios. Para o artista, a criação do mural conectou sua identidade à arte de rua e à ancestralidade, especialmente negra e afro-amazônica.
Outro destaque é a obra Rio Andirá, de Juan Carvalho. Inspirada na aldeia Ponta Alegre, do povo Sateré-Mawé, a pintura retrata o rio como uma entidade divina feminina. A peça faz parte do projeto Mitográfico, que já passou por comunidades como Matupiri e Ponta Alegre. Juan compartilha que pintar em grande escala foi desafiador, mas enriquecedor.
O artista Diogo Trindade traz uma abordagem espiritual e cósmica com obras que retratam o rio como habitat de entidades protetoras da natureza. Uma de suas pinturas representa um pirarucu ladeado por figuras espirituais, conhecidas como os “bichos do fundo”, guardiões do ecossistema aquático amazônico.
Levi Gama, artista indígena Kokama de Parintins, apresenta um mural centrado nos Sacacas, curandeiros guiados por essas entidades espirituais. Sua obra propõe uma reflexão sobre o adoecimento da sociedade contemporânea e propõe um retorno à cosmovisão indígena como caminho de cura e equilíbrio.
Renan Oliveira assina a obra Sob o Luar, uma celebração ao corpo feminino por meio da metáfora da vitória-régia. A pintura transmite elegância, força e sensibilidade, retratando mulheres dançando sob a lua em harmonia com a flor, como símbolo de resistência e beleza.
A colaboração entre Dayane Cruz e Kamy Wará resgata o mito do guaraná sob a ótica do povo Sateré-Mawé, em contraste com as versões embranquecidas e colonizadas da história. A obra valoriza a oralidade, os grafismos tradicionais e o guaraná como símbolo de sabedoria e conexão espiritual com Tupana.
Além das obras visuais, a exposição também incorpora sons da floresta, criados pela artista Gabi Farias. Esses elementos auditivos completam a imersão sensorial, promovendo uma vivência profunda e sensível do universo amazônico.
A proposta de Um Mergulho entre Mundos é criar uma ponte entre arte, espiritualidade, ancestralidade e natureza, refletindo o cotidiano de quem vive às margens dos rios e cercado pelas lendas da floresta. A mostra convida os visitantes a enxergar a Amazônia além do olhar turístico e a sentir sua essência por meio da arte.
Com obras potentes e sensíveis, a exposição promove o encontro entre tradição e contemporaneidade, identidade e resistência, oferecendo ao público uma experiência única de imersão na arte amazônica.